Para entender e participar da política

O que é política ? “Não sei, eu não gosto de política, prefiro discutir sobre um tema mais importante” é a resposta de alguns. Outros resumem o termo ao processo de eleição de um candidato e à gestão de determinado local: “é a gente eleger alguém para cuidar das necessidades do povo”; “escolher um só indivíduo para tomar as decisões por nós”; ou até mesmo “algo que serve para roubarem nosso dinheiro”. A relação apenas à “política partidária” é frequente, apesar de “política” abranger muitas outras possibilidades e estar presente em coisas simples do cotidiano.

Política: tem origem no grego politiká, palavra derivada de pólis, que, por sua vez, significa “cidade”. Refere-se a tudo que circunda o urbano, como a sociedade e a coletividade.

Política pode ser :

  • Ciência do governo das nações (Dicionário Priberam);
  • A arte de conquistar, manter e exercer o poder, o próprio governo (Nicolau Maquiavel, em “O Príncipe”);
  • A exposição e discussão de ideias;
  • Toda atividade que interfere no que é coletivo, em uma tentativa de obter mudanças para o futuro.

A política está por todas as partes. Por exemplo, quando a população saiu às ruas em 2013, protestando contra o aumento da passagem de ônibus, ela estava fazendo política. Quando pessoas se reúnem em grupo, para discutir assuntos considerados polêmicos, como legalização do aborto, da maconha ou do casamento homossexual, estão fazendo política. Quando alunos do grêmio da escola organizam um abaixo-assinado, pedindo a construção de uma cantina, também estão fazendo política. Diante de tantas situações, temos o direito de dizer que “política não nos diz respeito” ? É evidente que não. A política está presente em muitas situações, desde o nosso relacionamento com os pais, os lugares que frequentamos e o preço que pagamos pelas coisas. Todas elas são permeadas por relações de poder, conflito e autoridade.

Em geral, quem odeia a política se refere aos “políticos profissionais” e a um incômodo em relação aos problemas de funcionamento do “setor público”. Isso é uma visão difundida muito fortemente. Para essas pessoas, é necessário dizer que a política está presente em cada uma das nossas ações. Ou somos conscientes disso, ou podemos ser ignorantes úteis a alguém. Há certas pessoas que podem se dar ao luxo de não se preocupar com essas questões ao longo da vida. Outras, não. Lucas Andrietta, ex-aluno de Mecatrônica do Cotuca e doutorando em Economia na Unicamp

 

 

Política é também a união com quem possui os mesmos interesses e o ato de convencer quem não os tem. É a convivência em sociedade. Partindo do princípio de que somos seres sociais, não vivemos isolados, necessariamente precisamos conviver em harmonia entre nós e ter meios de conseguir esse objetivo.

Para Aristóteles, em “A Política”, o homem é naturalmente um animal político. Nesse sentido, na convivência em sociedade, o envolvimento político dos cidadãos promove melhores debates para decisões mais adequadas, pressupondo-se que não há uma verdade absoluta e que o futuro não está definido.

A propósito, o debate também é muitas vezes interpretado erroneamente. O que deveria ser considerado saudável – porque todos têm o direito de opinar -, geralmente é visto como algo ruim, como sendo o gerador de discórdia. É possível observar que, em grandes conflitos, há sempre quem tente abafar, difamar ou atacar o lado contrário ao seu, e quem questiona isso é sufocado com críticas muitas vezes desonestas, até porque um “cidadão de bem” não causa problemas, quem causa são os considerados desordeiros. Como vivemos em uma democracia, não seria mais justo todos explanarem seus posicionamentos e serem igualmente ouvidos? Não devemos ouvir também aqueles que nos contrariam? E podemos transformar nosso direito à liberdade de expressão em direito de promover discursos de ódio?

Para aproveitar ao máximo um debate e engajar-se politicamente, as opiniões devem ser bem fundamentadas, vir acompanhadas de argumentos consistentes e dados confiáveis, não de “achismos”, ofensas pessoais ou de silenciamentos ao outro. Mais do que isso, quem apresenta suas opiniões deve saber que elas não são imbatíveis.

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Isso significa que, ao contrário do que se vê por aí, política não é time de futebol, em que alguém veste a camisa que quer e ignora a que não quer, em que o outro que concorda é irmão e o que não concorda é inimigo, afinal, o divergente pode estar tão certo quanto você. E quando alguém diz algo que geralmente é dito por certos grupos, não significa que concorde com tudo que é dito por eles, ou seja, um indivíduo que defende os direitos humanos não necessariamente é “um socialista, advogado dos pobres, marxista e petralha”, do mesmo jeito que um indivíduo que defende a propriedade privada não necessariamente é “um capitalista, opressor, burguês e coxinha”. A política não é feita de “zero” e “um”, como a lógica binária supõe.

Criticou X, tem que fazer Y. A lógica binária do brasileiro volta a atacarConfira no link o texto de Leonardo Sakamoto

Parte dessa lógica binária se deve ao fato de querermos nos aliar aos nossos semelhantes, para dar mais força aos nossos ideais, porém, em vez de nos rotularmos, devemos usar essa união a nosso favor. E não tem como falar de união sem citar a Internet. Desde que nasceu, ela tem crescido absurdamente, tanto que atualmente está tão forte a ponto de ser parte de nossas vidas e, não seria diferente, também passamos a usá-la para fazer política.

Hoje, com a Internet, está muito mais fácil encontrar pessoas que pensam o mesmo que nós – como em grupos e páginas com que nos identificamos -, nos informarmos sobre os acontecimentos ao redor do mundo – como assistir em tempo real à votação, na Câmara dos Deputados, da redução da maioridade penal – e, principalmente, dar visibilidade a certos movimentos, convidando as pessoas a saírem da frente do computador e irem às ruas, para fazerem protestos, por exemplo.

Quando a expressão ciberativismo nasceu, ela servia para designar grupos que militavam a favor de certas causas e que passaram a utilizar o espaço virtual para divulgação e organização, como uma alternativa à mídia de massa convencional. A Internet tem esse poder e oferece muitas possibilidades a serem exploradas. Lucas Andrietta

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Leia mais:

Um convite à política: Lucas Andrietta, ex-aluno de Mecatrônica e doutorando em Economia na Unicamp, disserta sobre política, revelando onde ela está presente no nosso cotidiano, e nos convida a conhecê-la melhor

Você é a política: a socióloga Marília Moschkovich mostra como a política funciona e como a constituímos

Debater ou silenciar: o youtuber Clarion de Laffalot explica de modo simples qual a diferença entre discordar e silenciar o outro, em uma discussão política, revelando como ter um debate saudável

Pesquisa revela interesse dos jovens brasileiros pela política: a União Nacional dos Estudantes revela dados de pesquisas feitas com jovens e expõe qual é a participação deles na política (os dados da pesquisa podem ser conferidos na íntegra, no link da IPEA, com destaque na política nas páginas de 32 à 36)

Ciberativismo : o ativismo da rede para as ruas: o artigo apresenta o ciberativismo e dá exemplos de como a Internet amplia o ativismo político

 

2 Comentários

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THAÍS ROCHAresponder
setembro 06, 2015 em 05:09 PM

Quando um político é eleito, as pessoas acham que todas as promessas que ele fez se tornarão realidade a partir do momento que ele assume o cargo. Quando ele fracassa, a população espera que tudo se resolva rapidamente ou vire um caos. Quando as expectativas não são correspondidas, há protestos e manifestações, tudo bem, é um direito que todos nós temos, mas votar também é um direito e um privilégio, pois podemos escolher quem irá governar. O voto deve ser feito de maneira consciente, e não apenas porque um político disse algo que agradou naquele determinado momento. De um jeito ou de outro, nós aceitamos o que foi escolhido pela maioria, sendo que podemos melhorar nossa maneira de ver as coisas, exercendo cidadania todos os dias.

Marcosresponder
outubro 19, 2015 em 01:10 PM

Muito bom! Adorei

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