Madalena

Encontrava “tia Madalena” no banheiro várias vezes na semana, a cumprimentava e, apesar de sempre ocupada, me respondia com muita simpatia. Quando conversávamos, sempre me contava a mesma história de que seu filho prestaria o vestibulinho, com orgulho na voz e no olhar.

Certo dia, ela me disse que seria transferida para o Hospital das Clínicas. Quis, então, ter um registro de sua história imediatamente, e foi isso que eu fui fazer: conhecê-la melhor e mostrar um pouco de sua vida para a comunidade do Cotuca, por meio do Conexão.

No dia em que fui entrevistá-la, seu filho estava no Colégio para fazer a inscrição para o vestibulinho, já que havia começado naquele dia a disponibilização de um computador para que as pessoas pudessem realizar a inscrição ali mesmo. Achei muita sorte ter a chance de conhecer o filho de quem ela tanto falava e, no fim, foi uma entrevista a três.

Maria Madalena Ferreira da Silva nasceu em Indaiatuba e trabalhou na roça com os pais até os 14 anos. Ela mostrou muito orgulho por esse trabalho, contando que conhecia os lugares que possuíam minas d’água, já que seu pai, Raimundo Joaquim de Oliveira, era poceiro. Havia um agrônomo que queria que ela fosse agrônoma também, mas ela falava “não! Eu vou ser uma médica”, desde pequena. Esse era o sonho dela, talvez ainda seja. Perdeu um dos olhos aos 19 anos, quando um copo caiu no chão e um dos pedaços causou o acidente. Apesar de não ter dado detalhes, me chocou o fato dela ser somente uma jovem quando isso ocorreu.  

Hoje em dia trabalha na área da limpeza e também é cozinheira. Ela mostrou bastante gratidão por todos os empregos e pessoas que passaram ao longo de sua trajetória: “eu respeito a todos e todos me respeitam”. É aposentada por tempo de trabalho, mas sua vida é árdua, diz que não teve condições de estudar para se tornar médica. “O estudo abre muitos caminhos porque, sem ele, você quer caminhar e não consegue”.

Sobre os filhos, ela tem um menino e uma menina, cuja história me mostrou mais uma surpresa. A caçula, com seus 13 anos, tem paralisia no lado direito do corpo, hidrocefalia e tem convulsões com frequência. A Unicamp dá um certo apoio, ela faz tratamento lá, pode ser atendida em emergências e os remédios são disponibilizados, na medida do possível. Por essa e mais outras dificuldades de sua família, o mais velho quer ser médico. “Decidi ser médico, pois meu pai passou por nove cirurgias e minha mãe tem deficiência. É algo que nasceu dentro de mim, eu não preciso me motivar”. Ele prestará Enfermagem no Cotuca. O orgulho da mãe era bastante evidente.

Madalena me contou sobre seu passado e seus contratempos com muito brio e fé, sem mágoa nenhuma. “Nos momentos difíceis de minha vida, minha fé se redobra. Deus me dá força para caminhar”. Ela me mostrou que a vida é dura, mais do que deveria, e que muitas oportunidades vão ser tiradas de nós. No fim, ela agradeceu minha dedicação, mas eu é que tinha que agradecê-la, por ter me contado uma história tão admirável.

 

Foto de Giovanna Batalha e Maria Madalena Ferreira da Silva, no Cotuca

2 Comentários

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Celinaresponder
dezembro 03, 2015 em 10:12 AM

A história de Madalena é emocionante, com certeza. Porém, a atitude da Giovanna é fantástica. Parabéns!

Douglas Cardosoresponder
dezembro 03, 2015 em 09:12 PM

Parabéns, Giovanna. Um dos melhores textos do jornal!

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