Catalunha x Madrid

Duas vitórias e oito gols. Essa é a vantagem merengue sobre os catalães no famoso “El Clássico”. Desde a primeira partida, realizada em 1902, são 232 jogos oficiais, com 93 triunfos do Real Madrid, contra 91 do Barcelona, e 48 empates. Apenas números? Nada disso. A magnitude desse clássico passa longe de ficar apenas dentro dos estádios: carrega junto a ele uma grande história e o orgulho de dois povos.

 

Fundação das Equipes

 

Sempre relacionado à alta classe espanhola, o Real Madrid foi fundado em 6 de março de 1902, por jovens estudantes da escola “Institución Libre de Enseñanza” e inicialmente conhecido como “Madrid Futebol Clube”.

 

Sua fama pela riqueza ficou ainda mais consistente quando, em 1920, o rei Afonso XIII concedeu ao clube o direito de utilizar a coroa espanhola em seu emblema, e a palavra “Real” em seu nome, tornando-se “Real Madrid Futebol Clube”, como é conhecido até os dias de hoje.

O emblema do Real Madrid sofreu adaptações desde sua criação até chegar ao formato dos dias de hoje

 

O Barcelona, por sua vez, teve um começo completamente diferente. Fundado em meio aos centros urbanos em 22 de outubro de 1899, pelo ex-futebolista suíço Hans Gamper, a equipe passou por grandes dificuldades em seus primeiros anos, chegando à beira da falência apenas dez anos após sua fundação.

E foi na torcida que os blaugranas tomaram forças para se reerguer. Em 14 de março de 1909, a equipe mudou sua casa para o “Carrer Industria”, um estádio que comportava 8000 torcedores. Com o sucesso do investimento, o Barcelona se mudaria novamente em 1922 para o estádio “Les Corts”, que inicialmente tinha capacidade para 22.000 torcedores, e, após reforma, chegou a acomodar cerca de 30.000 pessoas.

 

Nascimento da Rivalidade e do Símbolo Catalão

O “El Clássico” sempre é um jogo cheio de energia. Brigas e discussões são comuns, deixando o clima ainda mais tenso dentro de campo

 

O século XX foi um período de conturbações da Espanha. A ‘Ditadura de Primo de Rivera’ (1923-1930) e a ‘Guerra Civil Espanhola’ (1936-1939) trouxeram mudanças drásticas dentro do cenário do país. Ambos os movimentos perseguiram os catalães, que foram impedidos de manifestar sua cultura dentro do território Espanhol, incluindo a utilização de sua língua nativa.

O futebol apareceu pela primeira vez então como refugo para os oprimidos, que encontraram no estádio do Barcelona um lugar onde conseguiam expressar seu dialeto sem serem repreendidos.

A situação se agravou quando, em 1940, o ditador espanhol Francisco Franco, fechou o Campeonato Catalão, obrigou o Barcelona a mudar de nome para “Clube de Futebol Barcelona” e alterou o emblema da equipe, fazendo alusão à bandeira espanhola.

 

Durante a ditadura de Franco, o logo do Barcelona passou por alterações

Com o fechamento do principal torneio da Catalunha, o Barcelona  passou a ter como principal campeonato a liga espanhola, da qual os merengues faziam parte. Os confrontos entre as duas equipes, que antes ocorriam apenas em festivais e copas nacionais, se tornaram ainda mais constantes.

 

Caso “Di Stéfano”

 

Em 1953, o Real Madrid estava enfraquecido e vendo seu rival político, o Barcelona, como maior ganhador da liga espanhola. Foi então que Di Stéfano incendiou de vez a rivalidade entre merengues e catalães.

Após uma atuação de gala do jogador pelo Millonarios, em um amistoso contra o Real Madrid, catalães e merengues começaram uma corrida pela contratação de Di Stéfano. O ministro do esporte teve que intervir. A solução? O atleta faria uma temporada em cada equipe. Os catalães não aceitaram o acordo e cederam o jogador aos blancos.

Di Stéfano: o jogador que trouxe de volta a honra da equipe madrilenha.

 

Di Stéfano foi brilhante no Real Madrid. Comandou a equipe que ganhou um bicampeonato logo após sua chegada. O Barça nunca “engoliu” essa negociação que, até hoje é tratada como traição dentro do clube por parte do jogador.

Recentemente, o considerado “troco” foi dado, com o brasileiro Neymar, quando a equipe conseguiu contratar o jogador que já negociava com os blancos.

 

Importância do Barcelona para a Catalunha atual

 

Em 2014, um relatório questionando a influência do Barcelona dentro do movimento separatista foi divulgado. As informações que inicialmente eram secretas e de posse do governo espanhol vazaram na revista Interviu, famosa na Espanha.

A pesquisa aponta que um posicionamento favorável do Barça ao movimento separatista influenciaria de 30% a 40% dos eleitores em uma possível eleição.

catalunhaDeputados se manifestam com bandeiras durante a votação separatista da catalunha

 

O Barcelona nunca se manifestou, como instituição, a favor do movimento separatista. Porém, sempre demonstrou estar ao lado do povo catalão. “Ainda que o Barça seja um clube global, somos um clube catalão e catalanista e estaremos ao lado do nosso país [a Catalunha]”, declarou o presidente blaugrana, Josep Maria Bartomeu, em entrevista realizada em julho de 2014 no estádio Camp Nou. “O Barça não entra em política, mas sempre estará com a maioria dos catalães”, acrescentou Josep.

Em 2015, mais um passo importante foi conquistado para os revolucionários. Os partidos pró-independência conseguiram maioria dentro da Bancada Parlamentar, o que facilita o andamento do processo separatista.

 

 


Curiosidades

 

  • Cor do emblema do Barcelona

As cores originais deveriam ser azul, vermelha e amarela. Porém, o pintor não possuía a tinta vermelha, que foi substituída pelo grená.

 

  • Bandeira da Catalunha

A bandeira oficial da Catalunha possui quatro faixas vermelhas em um fundo amarelo. Porém, a bandeira usada nos estádios e por toda a cidade não é essa.

A chamada “Bandeira da Independência Catalã” possui um triângulo azul com uma estrela, extraídos da bandeira de Cuba. O país americano é tomado de exemplo para os catalães, uma vez que conseguiu sua independência sobre os espanhóis.

A bandeira da Catalunha Independente é constantemente usada em protestos

 

  • Dia de San Culé

Assim ficou conhecido o dia do primeiro ato de manifestação catalão contra o governo espanhol dentro de um estádio de futebol. Após terem sua cultura reprimida na ‘Ditadura de Primo de Rivera’, a torcida do Barcelona vaiou a plenos pulmões o hino espanhol no começo da partida.

 

  • Apelido Culé: Torcida do Barcelona

 

Os torcedores do Barcelona costumavam se sentar muro. Portanto, quem passava na rua não tinha uma visão muito privilegiada.

 

A palavra Culer (“culé” na transposição sonora do espanhol) é derivada da palavra Cul, palavrão catalão que significa ânus. Assim ficou conhecida a torcida do Barcelona, pois, ao passar pelas arquibancadas de seu novo estádio, ‘Carrer Indústria’, era possível ver as nádegas dos torcedores que se sentavam no muro das arquibancadas.

 

  • 17 minutos e 40 segundos

Em todos os jogos, exatamente aos 17 minutos e 40 segundos, a torcida do Barcelona exercita uma tradição. Nas arquibancadas do Camp Nou, bandeiras da Catalunha são levantadas e ouvem-se gritos clamando pela independência.

 

 

 

Esporte e Política – Outros momentos que marcaram a história

 

Os dois países se enfrentaram na final do Basquete, nas Olimpíadas de Munique, em plena Guerra Fria. O jogo “acabou” com vitória dos EUA, que já comemoravam a medalha de ouro, quando o juiz brasileiro (e campineiro) foi notificado pelo secretário-geral da partida de que houve um erro no tempo anotado no placar e, portanto, ainda restavam 3 segundos de jogo. A URSS conseguiu uma cesta e se consagrou campeã naquele ano.

A final aconteceu em plena Guerra Fria, quando as relações entre URSS e EUA estavam conturbadas

 

 

Conhecida como “Partida da Morte”, todos os jogadores de uma equipe de futebol ucraniana e soviética (FC Start) foram presos e torturados após derrotarem por 5 a 3 um time composto por soldados nazistas (Flakelf). Os jogadores foram avisados antes da partida e durante o intervalo (momento em que o jogo estava 3 a 1 para a URSS) de que, caso não permitissem a vitória do time de Hitler, sofreriam graves consequências.

 

3 Comentários

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Editorial – 3ª edição – Conexão Cotucaresponder
Abril 16, 2016 em 02:04 PM

[…] e do Som, por Douglas Cardoso e Laura Olivato, os novos e-sports, por Lucas Costa, os embates entre Real Madrid e Barcelona que ultrapassam os limites do campo de futebol, por Lucas Pedroso, o combate ao mosquito Aedes […]

André Pastiresponder
Abril 16, 2016 em 07:04 PM

Excelente texto! Retomar a cultura e a política a partir do futebol… Muito bom, Pedroso!

Seria uma pauta linda desdobrar esse caso do basquete, com o juíz campineiro (e parente de ex-alunos do Cotuca) Renato Righetto!

Paulo Pacittiresponder
Abril 18, 2016 em 09:04 PM

E depois falam que futebol e política não tem nada a ver. Representou Pedroso #PoupaTempo

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