Mulheres negras e segregação

A mulher negra no Brasil e a desigualdade

Após a abolição da escravidão no Brasil, não foi criada nenhuma lei para proteção dos ex-escravos e das ex-escravas. Na prática, poderíamos dizer que a escravidão não deixava de existir: pessoas negras não possuíam terras, educação e a única experiência profissional era aquela que exerciam antes da abolição. Muitos negros continuaram a exercer trabalhos semelhantes àqueles de quando escravos, também sem remuneração.

Na época escravista, as atividades das mulheres eram quase sempre as de cuidar da casa grande. Após a abolição, sem mais opções, continuaram a exercer o papel de “criadas”. Isso deixa marcas até hoje: em 2014, segundo o DIEESE, mais de 96% das pessoas trabalhando como empregadas domésticas eram mulheres — a maioria negras.

Fonte: Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça, IPEA

Com o tempo, a casa branca e a senzala deixaram de existir; a paisagem muda e surgem bairros burgueses e favelas, centros urbanos e periferias. A pesquisa Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça aponta que, em favelas e assemelhados, 40% das casas são chefiadas por homens negros e 26% por mulheres negras. Esses números apontam a predominância de pessoas negras nesses espaços.

No Brasil, as opressões de gênero, classe e raça são vivenciadas por mulheres negras. Elas são as que possuem menor rendimento e maior sensação de insegurança. Nas cidades, ocupam sobretudo as favelas e estão nas condições de pobreza e miséria que as colocam em maior vulnerabilidade. Também vivenciam com maior intensidade a violência nos centros urbanos.

As mulheres negras são as que mais se sentem inseguras em ambientes públicos e privados: em 2010, 24% das mulheres negras se sentiam inseguras no domicílio, 66% no bairro e 50% na cidade, segundo o IBGE. Esses dados são menores para populações com outras características, acusando uma maior vulnerabilidade da população negra,  especialmente de mulheres. Segundo o Mapa da Violência, em 2010 morreram 48% mais mulheres negras do que brancas vítimas de homicídio. Essa diferença vem se mantendo ao longo dos anos. O mesmo documento indica que cerca de 92% dos casos de violência física contra mulheres negras ocorreram dentro da residência e partiu do cônjuge ou conhecido.

 

Mulheres negras, exploração sexual e usos do território

O patriarcado pode ser compreendido como um sistema no qual o homem tem poder sobre a mulher nas esferas econômica, política e social. Na América Latina, a sociedade foi construída sob um sistema patriarcal e escravista, devido ao modelo colonial ao qual foi submetido. As mulheres negras tiveram seus corpos muitas vezes violados pelo estupro. Criou-se, assim, uma desvalorização cultural do corpo da mulher negra, que se perpetua até os dias de hoje.

O Brasil é, ainda, um dos grandes destinos do turismo sexual. Com os baixos salários e menores oportunidades, muitas mulheres são exploradas sexualmente e vivem um contexto de hipersexualização de seus corpos. No caso da mulher negra, a violência de gênero se soma à violência racial, ou seja, esse turismo existe num contexto tanto racista quanto sexista. Uma das maiores violências é observada na prostituição infantil: o Brasil é o país com maior incidência na América Latina, segundo a ECPAT. A maioria das meninas vítimas da prostituição infantil são pobres e de ascendência africana ou mista.

APROFUNDANDO: RAÇA E GÊNERO

A doutora em psicologia Elisa Nascimento afirma, em seu livro Sortilégio da cor: identidade raça e gênero no Brasil:

“o racismo se constitui e opera essencialmente da mesma forma que o sexismo, tanto no campo da discriminação, resultando em desigualdades sociais estatisticamente mensuráveis [deixar morrer], quanto no âmbito mais amplo, efetuando de diversas maneiras, ora diretas, ora sutis, determinações e condicionamentos às possibilidades e às perspectivas de vida das pessoas e dos grupos humanos envolvidos [fazer viver].

 

O território é um conjunto de relações de poder, são espaços onde existem relações políticas e cargas históricas. Precisamos, assim, investigar os diferentes usos do território. A esfera da circulação de ideias, crenças, paixões, valores e sentidos no é chamada pelo geógrafo Milton Santos de “psicosfera”. Essa noção é importante para análise de que a difusão de certos sentidos sobre as mulheres negras na psicosfera condiciona os usos do território pelas mesmas.

A mídia retrata a mulher negra muitas vezes como “atrativo turístico”. Nota-se muito isso durante o carnaval, época em que imagens de mulheres negras seminuas são vinculadas na mídia. O Código Mundial de Ética no Turismo reconhece esse tipo de propaganda como incentivo ao turismo sexual. Ou seja, além da pobreza e falta de oportunidades levarem mulheres a se prostituírem, a mídia colabora com o avanço do turismo sexual ao fazer essas imagens circularem.

Propaganda da cerveja Devassa em revistas impressas.

Essas imagens criam um imaginário preconceituoso sobre as mulheres negras. Muitas vezes, elas são chamadas de “mulatas” nas propagandas. O termo mulata tem um grande peso histórico e social. A princípio, era uma referência à “mula”, que por sua vez diz respeito ao “híbrido”, progênito resultante da mistura de raças. Com o tempo, cria-se um mito acerca da palavra: é usada para se referir ao corpo da mulher negra como forma mercantilizada. Essa circulação da imagem da mulher negra, a mulata, na psicosfera também condiciona seus usos do território – os lugares onde se sente segura ou, na maioria das vezes, insegura.

Fonte: IPEA. Dossiê Mulheres Negras: retrato das condições de vida das mulheres negras no Brasil. Brasília: IPEA, 2013.

Atualmente, há um movimento de feministas negras no Brasil que busca fazer circular o debate de empoderamento das mulheres negras: transformar a imagem de beleza, garantir mais voz e protagonismo a elas. Esse conjunto de valores, capazes de diminuir a insegurança dessas mulheres, condiciona a forma como vivem e usam o território.

“muitas mulheres negras sentem que em suas vidas existe pouco ou nenhum amor. Essa é uma de nossas verdades privadas que raramente é discutida em público. Essa realidade é tão dolorosa que as mulheres negras raramente falam abertamente sobre isso” — Bell Hooks, Vivendo de amor

Devemos reinterpretar o mito da democracia racial em sua dimensão geográfica, percebendo a existência de segregação espacial combinada com segregação étnico-racial.

Os estudos geográficos podem contribuir no entendimento dessa segregação ao considerar, além das condições sociais, as desigualdades dos usos do território em relação à raça e gênero. Nessa agenda de estudos em aberto, cabe considerar com destaque a psicosfera e analisar a produção e circulação de sentidos sobre as mulheres negras, importantes para condicionar suas territorialidades.

 

* Ana Luísa Ruggeri é ex-aluna de Eletroeletrônica (concomitante noturno) do Cotuca. Atualmente, é caloura do curso de graduação em Direito da UNESP.

Este texto busca publicar resultados de um projeto de iniciação científica que foi realizado na disciplina de Geografia, sob orientação do Prof. André Pasti.

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Editorial – 3ª edição – Conexão Cotucaresponder
Abril 18, 2016 em 11:04 AM

[…] sobre a produção de sucessos editoriais, e de Ana Luísa Ruggeri, sobre a segregação nos espaços ocupados por mulheres negras, ambas desenvolvidas na disciplina de Geografia, no Cotuca. Assim, inauguramos um espaço de […]

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