16/09: o dia em que o Cotuca parou para discutir a homofobia

Homofobia não é assunto novo no Brasil. Segundo estudo realizado pela Universidade de São Paulo em 2014, sete em cada dez homossexuais brasileiros já sofreram algum tipo de agressão, seja física ou verbal. O Cotuca não é um espaço isento a esse tipo de situação, que se espalha pela sociedade e precisa ser debatido.

Expressar abertamente a direção do desejo sexual e afetivo ainda não é um direito livre numa sociedade onde a heterossexualidade é norma. Revelar-se gay, atualmente, é sobretudo estar exposto à violência”. – Trecho de: USP. Pesquisa analisa efeitos da revelação da orientação sexual sobre vivência plena da homossexualidade, AUN, n.63, 2016.

Na última sexta-feira, dia 16, os alunos do Cotuca realizaram atividades de protesto no colégio, com o mote “Homofobia, não!”. Logo pela manhã, vários cartazes com esse dizer estampavam os corredores do Cotuca e levavam o debate para toda a escola. Além disso, os estudantes combinaram cores de roupas e tiveram seus rostos pintados em apoio ao movimento.

Motivação

No dia anterior à mobilização dos estudantes, um casal de alunos homossexuais foi abordado por um dos funcionários do colégio que os levou à sala de Serviço e Orientação Educacional (SOE), alegando que os dois estavam trocando demonstrações afetivas excessivas, o que seria contra o item F, artigo IV, do Manual do Aluno do colégio, que indica como orientação: “Namorar de maneira adequada ao ambiente do Colégio, evitando exageros e constrangimentos, como beijos e abraços exagerados, sentar ou deitar no colo um do outro. Evitar ficar em salas de aula sozinhos, com a porta fechada, ou em locais onde há pouca circulação de pessoas”.  A orientadora do SOE repreendeu os alunos e afirmou que relataria o caso para as famílias, que não sabiam sobre a homossexualidade deles.

Os alunos manifestantes consideraram que a ação proposta pelo SOE de informar às famílias assuntos ligados à identidade dos alunos não deveria ser imposta pelo Colégio. Isso levou o caso a ganhar repercussão e os alunos se organizaram para protestar contra a discriminação de homossexuais: “nós entendemos isso como uma violação de privacidade, afinal, o SOE não compreende completamente as questões familiares dos envolvidos”, explica Arthur Mestriner, representante do movimento.

A posição do SOE mudou. O caso não foi relatado às famílias e um grande debate se iniciou no Colégio, tanto por parte dos alunos, quanto por parte da direção. Em entrevista feita após o movimento, a diretora Teresa Helena de Carvalho afirmou que “a postura da escola é preservar os envolvidos ao máximo. Vamos consultar o Conselho Tutelar, e fiquem tranquilos, que a escola não vai fazer nada que não possa ser feito”.

Alunos usam camisetas coloridas e tinta em manifestação contra a homofobia na escola.

A partir das discussões virtuais, dois grupos foram criados no Facebook: “Homofobia Não”, com o objetivo de organizar o movimento que aconteceria na sexta feira, e “Por Um Cotuca Melhor”, para compartilhar e discutir situações que envolvam a questão LGBT dentro do Colégio.

O movimento “Homofobia, não”

A mobilização ocorreu no antiteatro do Colégio, com a presença de alunos e ex-alunos de diversos cursos, defendendo o mote “Homofobia, não!”. O encontro aconteceu durante o intervalo das aulas no período da manhã. Entretanto, ultrapassou os seus 15 minutos, chegando a paralisar a aula seguinte.

Segundo os estudantes Arthur Mestriner e Mariane Lira, as principais reivindicações do movimento eram: (1) a revogação da decisão de ligar para os pais dos envolvidos — já que a decisão sobre expor ou não a sexualidade é de foro íntimo, além da possibilidade de reações violentas das famílias; e (2) uma proposta de conscientização dos funcionários e professores do Colégio, por meio de palestras e discussões, para que haja uma melhor conduta e um padrão de como agir nas situações que podem vir a ocorrer, envolvendo a comunidade LGBT. O estudante Guilherme Nascimento, que compareceu ao movimento, afirma “eu acho que o movimento está sendo super necessário para promover uma conscientização dos funcionários de que todas as formas de amor devem ser tratadas da mesma maneira”. Outra proposta levantada pelos estudantes foi a de expandir essa discussão para as famílias dos alunos, convidando-as a participar dos eventos sobre o assunto.

O principal objetivo do movimento não é simplesmente lutar contra o que aconteceu, mas, sim, mostrar para o colégio que atitudes preconceituosas vão ser repudiadas pelos alunos e serão debatidas com a escola com o objetivo de tentar resolver as questões sempre de maneira pacífica e saudável”, conta Arthur.

Estudantes reunidos no anfiteatro do Colégio para discutir o mote “Homofobia, não!”

A diretora Teresa presenciou os estudantes reunidos e dialogou com eles. Ela afirmou que os casais do Cotuca precisam ter mais cuidado com o tipo de relação que mantêm dentro do Colégio, para que não seja algo desproporcional ao ambiente escolar.

Houve, ainda, a presença de professores e funcionários, que permaneceram como observadores do movimento. Além disso, o debate contou com a participação da professora de Educação Física Patrícia Mano, que, durante o debate, também participou da discussão e expressou seu posicionamento.

Em entrevista concedida ao jornal, a professora conta que, no começo da paralisação, não sabia o que estava acontecendo e ficou surpresa quando ficou sabendo. “Achei muito importante a frase do movimento que é ‘A gente não quer estar contra a direção, não queremos cartaz contra o Colégio, queremos ele com a gente para, juntos, alunos, Colégio, direção, SOE e família, pensarmos em como tratar a questão da homofobia’. Achei muito madura, até me emocionei, só de pensar que são alunos de 15 a 18 anos falando isso para a gente. É um momento de discussão, e ela é rica. E quando alguém pergunta: ‘não está tendo aula?’. Eu respondo: ‘como não está tendo aula? Esses debates são aulas riquíssimas’. Dou parabéns aos alunos”.

Patrícia ainda afirmou que mentalidade não é algo que se muda rapidamente e que será algo que durará anos ainda no Cotuca. E completa dizendo: “se o Cotuca não brigar por um mundo melhor, quem que briga? O que devemos esperar desse mundo? Não adianta estudar Geografia, História, entre outras matérias e querer um mundo melhor. Se a gente não brigar por um mundo melhor, com essa juventude, em um colégio da Unicamp, quem que nesse mundo irá construir um mundo melhor?”

Propagação na rede

A movimentação dos estudantes teve grande repercussão nos grupos criados nas redes sociais. Os estudantes espalharam em suas fotos de perfil do Facebook o filtro “Eu luto pelo fim de um Cotuca homofóbico”, atingindo mais de 500 pessoas. Além disso, os alunos estão organizando novos atos de conscientização contra a homofobia.

Alunos do colégio mudaram suas fotos de perfil em apoio ao movimento.”

DIÁLOGO COM A DIREÇÃO

A direção do Colégio também concedeu uma entrevista ao jornal sobre o tema. Segundo a diretora Teresa Helena, o Colégio é uma instituição pública que segue a Constituição Federal que, no seu artigo quinto, afirma que todos são iguais perante a lei. Além disso, o colégio declara em seus princípios — no início do Manual do Aluno e em seu site — o respeito às diferenças. Então, do ponto de vista institucional, a escola não aceita qualquer discriminação. Contudo, ela explica que, apesar da autoridade da lei e do posicionamento oficial do Cotuca, muitas pessoas ainda carregam concepções preconceituosas, pois uma alteração cultural e social é algo que demanda muito tempo e esforço.

A direção ainda afirmou que, no ano início, ao perceber a necessidade de discutir o assunto, trouxe, durante a semana de planejamento, uma psicóloga que palestrou sobre diversidade sexual para os professores. O colégio tinha o objetivo de trazer essa palestra também para os outros funcionários no mês de agosto. Contudo, em função de um problema de agenda, o evento foi adiado e acontecerá em breve. A mesma palestra será realizada para os alunos durante o “Mês de Humanidades”.

Afirmou também que a postura da direção seria de preservar os envolvidos, e não invadir suas privacidade, mas que os alunos não deviam se expor. “Quem faz as coisas sem privacidade, publicita sua vida. Está público, então a gente pode até não falar nada, mas não pode impedir que um amigo não comente algo. A gente perde o controle quando a situação é pública”, afirma a diretora Teresa Helena.

Dois grupos de alunos foram recebidos pela direção do colégio após as manifestações no anfiteatro. O objetivo da conversa era discutir reivindicações do movimento e entender melhor o posicionamento da direção e do SOE sobre o caso. Segundo os organizadores do movimento, a direção aceitou as reivindicações. No dia seguinte, 17 de setembro,  a direção do colégio publicou uma nota de esclarecimento sobre o ocorrido, afirmando que o Cotuca “deve aprimorar constantemente suas ações a partir do diálogo com a comunidade” e assumindo publicamente três compromissos:

–  Continuidade e expansão das ações de conscientização de toda a comunidade do Cotuca (alunos, professores, funcionários) em relação ao respeito à diversidade e o combate ao preconceito;

– Aprimoramento das condutas institucionais em relação aos casais homoafetivos, respeitando-se as normas do colégio e o tratamento igualitário;

– As ações da escola devem respeitar a sensibilidade com a orientação sexual dos alunos em um cenário onde há preconceito e discriminação na sociedade. Desse modo, não deverá haver a exposição da sexualidade e intimidade dos alunos por parte da escola.

Apesar da declaração da direção, a estudante Mariane Lira aponta seu descontentamento com a postura do Colégio: “a partir de uma situação constrangedora e abusiva, gerada pela própria administração da escola, após uma série de atividades dos alunos, a direção precisou ser pressionada por professores para que percebesse a barbárie que estava prestes a cometer! É lamentável que precisemos de um intermediário, como os professores, para que nossas pautas sejam ouvidas e levadas a sério”.

Após o movimento da sexta-feira, a estudante conta que os alunos não tiveram outra reunião direta com a direção do Colégio, mas, com a saída da nota, todos os pedidos do movimento foram atendidos publicamente no documento. Apesar disso, Mariane afirma que são necessárias cobranças para que o que foi prometido seja cumprido na prática. Além disso, conta que há novas reivindicações sendo trabalhadas no movimento: ainda há coisas que queremos que sejam repensadas e que iremos apresentar como pauta”.

1 Comentário

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Por um Cotuca melhor | Nocturne in the Moonlightresponder
outubro 13, 2016 em 10:10 PM

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