As mulheres no mundo dos jogos online

Com a Gincana 2020 logo no fim desta semana, não poderíamos deixar de comentar um dos assuntos mais falados na edição deste ano: os campeonatos femininos de jogos eletrônicos. As provas, inéditas até então, surgiram da preocupação das alunas do colégio por não se sentirem confortáveis nas mesmas equipes que os meninos, dado que os jogos online se tornaram, ao longo dos últimos anos, principalmente no cenário competitivo, um ambiente tóxico e preconceituoso (em sua maioria), e isso afeta diretamente as mulheres.

Para conversar sobre isso e gravar um podcast, a organização da Gincana 2020 entrou em contato com duas ex-alunas do Cotuca, Dayane Araújo de Oliveira e Gabriela Borges Soares, de Mecatrônica, que conhecem bem o mundo dos games e deram a ideia de entrevistar Heloísa Medeiros, também ex-aluna do colégio, que se formou em Jogos Digitais pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), e atualmente trabalha como desenvolvedora de jogos e redatora para sites especializados no assunto. Para acompanhá-las, também fez parte da conversa a aluna Julia Campoli Sacco, do curso de Informática, que trabalha ativamente na organização da gincana e representou as meninas do colégio no debate.

Para começar a conversa, as quatro falaram sobre como começaram a se interessar pelo mundo dos jogos, muitas influenciadas pelos homens da família (quando a influência não lhes era negada), começando nos consoles e partindo, anos mais tarde, para os jogos competitivos de computador (como League of Legends e Valorant). Elas comentaram também sobre como enxergam esse universo online, muitas vezes se sentindo desconfortáveis em jogar com pessoas desconhecidas ou serem reconhecidas como meninas (seja pelos nicks ou pelo chat de voz), com medo das possíveis retaliações dos jogadores.

Os caminhos na comunidade dos videogames são sempre cheios de obstáculos para as mulheres. Heloísa comentou, durante a entrevista, como foi difícil para ela, enquanto mulher e LGBT, passar pela graduação. “Eu fiz amizade com um menino da minha sala só, que também era LGBT, e foi com ele que eu fiz todos os meus projetos, enquanto os outros meninos [que eram maioria na turma] faziam grupo de seis pessoas e projetos muito maiores”, comentou. Segundo ela, qualquer tentativa de conversa com aquelas pessoas era difícil: “eu fui monitora de uma disciplina, e o pessoal da minha turma que vinha tirar dúvida comigo dizia que eu explicava a matéria errado, sendo que não estava, eles que não conseguiam entender e tinham que culpar alguém.”

Julia, atualmente aluna do Cotuca, disse que só se sente confortável quando joga com os amigos: “eu não jogo sozinha. Sempre prefiro jogar com time 100% fechado para não ter que lidar com gente gritando comigo só porque eu sou mulher”. Ela compartilhou, ainda, experiências de machismo que já passou nesse meio: “quando eu era mais nova, cheguei a ter ‘amigos’ que só jogavam comigo porque um deles estava interessado em mim”. Segundo ela, esse é o principal motivo para que as provas dos jogos online tenham campeonatos femininos separados na Gincana 2020, para que elas tenham um ambiente saudável e confortável para se divertirem sem ter que lidar com o preconceito apenas por serem mulheres.

As meninas também falaram sobre a representatividade feminina nos jogos mais atuais, que tem melhorado, mas não sem causar alvoroço. O exemplo mais recente de diversidade feminina talvez seja The Last of Us 2, que possui duas protagonistas femininas, Ellie, que é LGBT e não tem um corpo sexualizado, e Abby, que gerou mais polêmica por ser uma personagem musculosa e violenta. Outros bons exemplos de representação são Max e Chloe, personagens do aclamado Life is Strange.

Para terminar o debate, elas deram conselhos para as meninas que querem se aventurar nesse mundo. Mesmo sendo um pouco assustador, a melhor recomendação para elas é que se juntem para jogar: ter uma amiga ou um amigo que possa acompanhar, ou um time fechado, no caso de jogos competitivos. Além disso, também vale se arriscar em diferentes tipos de jogos e diferentes comunidades para ver qual se aplica melhor a você, em qual você se sente mais confortável para ser quem você é, sem ter medo de preconceitos.

Para aqueles que quiserem conferir a conversa na íntegra, o estagiário Vítor Marmirolli, aluno de Letras na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), editou um podcast com a conversa completa. Ele está disponível tanto no Spotify, quanto no YouTube.

A Gincana Cotuca 2020 acontece nos dias 5, 6 e 7 de novembro, e mais informações podem ser encontradas na página do Conexão Cotuca, ou no Instagram (@gincana_do_cotuca) da Gincana. Estaremos esperando por vocês nas transmissões ao vivo das provas!

2 Comentários

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André Pastiresponder
novembro 03 em 06:11 PM

Amei a matéria e o podcast! Parabéns a todas!

GORETTI CAMPOSresponder
novembro 04 em 07:11 PM

Excelente trabalho.

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